quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

De uma remalina destacada


Fui útil enquanto estive presa a você.
Estava sempre ali, à margem, servindo de tracionamento para que pudesses correr livremente e assim imprimir sua história.
Agora que estás preenchido do cabeçalho ao rodapé, sou descartada como lixo.
Que triste fim! Todos sentem prazer em arrancar-me através do picote.
Oh! Meu querido! Juntos éramos um formulário contínuo! Eu sem você não passo de uma fita furada... E você também não durará muito, pois o mundo agora é da A4 e já te usam como rascunho.
Em breve seremos os dois obsoletos!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Relíquia


Realmente ele custa muito caro. Mas é que ele demorou muitos anos pra ficar assim desse jeito; com esse cheiro único e com essa forma delineada de seios perfeitos e de ancas baixas.
O valor dele não é medido apenas por horas trabalhadas + o lucro embutido. Ele vale também pelo quanto saiu a passear pelas ruas e os lugares que conheceu. Vale pelo quanto balançou ao vento no ritmo de passos elegantes. Vale o quanto ocupou espaço no guarda-roupa e no varal ao sol daqueles dias de primavera.
Esse cerzido perto do fecho não é um problema, na verdade foi a solução encontrada, consequência da pressa pra se livrar daquele zíper inoportuno.
Trouxe aqui nessa loja de usados não por ele estar velho, não por valer pouco, ao contrário, trouxe aqui por não encontrar butique ou shopping à altura dele. Essas modernidades não estão com nada, estão fora da minha moda e me enjoam.
Por que me desfaço dele? Ah meu amigo!! A vida é assim mesmo... Eu é que estou me desfazendo aos poucos, a vida não tem sentido sem ela e preciso dar outra vida a esse vestido antes que eu morra de saudades.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dialética



É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinícius de Moraes